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RENITÊNCIAS

Na Exortação Apostólica Verbum Domini, Bento XVI refere-se por diversas vezes, ora explícita, ora implicitamente, à Palavra de Deus, como   caminho de Deus para o homem e caminho do homem para Deus. Para quem tem a graça da Fé, esta Palavra aceite como Palavra divina, emerge na vida do homem como uma ponte que Deus quer estabelecer entre Ele e o ser humano, um espaço de encontro, de convite - resposta, de um vai e vem envolto em mútua cumplicidade, de uma relação de intimidade e compromisso, na qual o Espírito Santo, único capaz de interpretar essa Palavra, nos torna aptos para a escutar e entender, para a saborear por dentro, para a compreender, para acolher as suas chamadas e para nos comprometer com ela, segundo o coração de Deus.
Apesar de, ao nível intelectual e mesmo  afectivo, concedermos a esta Palavra, Verbo de Deus, a suprema autoridade, de a adoptarmos como comando e código dos nossos relacionamentos, de experimentarmos que só ela, e apenas ela, é capaz de nos modelar interiormente,  de  nos sustentar na dramaticidade da nossa existência e de ser para nós a única palavra de vida eterna, (Jo.6,68), com frequência a esquecemos, lhe resistimos ou somos indiferentes e, não vigilantes, desertamos para outra palavra qualquer, palavra que, embora bonita e de descodificação mais simples e imediata, não constitui margem segura de rio que leve à fonte das águas refrescantes que só Deus feito Palavra nos pode oferecer para fecundar a nossa terra tantas vezes ressequida.
Quantas vezes nas nossa celebrações, ou mesmo a sós, aclamamos a Palavra de Deus cantando, “A tua Palavra Senhor, é luz dos meus caminhos” e, logo a seguir, agimos à luz de um holofote qualquer, que dirigido de lugar impreciso, nos focaliza e encandeia, remetendo-nos para a cegueira dos nossos pensamentos e actos?
É, precisamente aí, na experiência da nossa radical fragilidade, que mais carecemos da força e luz da Palavra, do Verbo de Deus, que nos chama e dá a possibilidade de um redimensionamento novo e original da nossa vida. Uma vida a tecer na e com a Palavra, concedendo-lhe autoridade sobre nós. Um caminho a percorrer com paciência, como pessoas que querem ser “de Palavra”  e despojadas de injustificadas renitências.

Ir. Natália Santos