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Mais depressa se chega a Marte

Embora o escritor José Saramago não esteja na linha da frente das minhas preferências literárias, impressionou-me muito uma das suas afirmações, tecida já no crepúsculo da sua vida terrena, quando ele procurava reencontrar e “devolver” a  criança linda que tinha sido, no início do seu percurso nesta terra: “… é mais fácil chegar a Marte do que ao seu semelhante…”.
O escritor referia-se, por um lado aos avanços incomensuráveis da ciência e da técnica, aos poderes tecnológicos sempre crescentes, extasiantes e polarizadores das nossa múltiplas inteligências e, simultáneamente, ao empobrecimento progressivo do humanismo dos nossos relacionamentos, traduzido na carência do verdadeiro interesse pela dignidade dos que são nossos companheiros de “viagem”, que vivem  aqui em ” baixo”, mesmo ao nosso lado, revestidos da mesma nudez e respirando o mesmo sopro de vida.
 Se paramos um pouco a meditar nesta abissal discrepância, deveras dolorosa e nostálgica da nossa verdadeira essência, o nosso espírito é imediatamente invadido por um sem número de naturais e lógicas justificações. Mas, se formos verdadeiramente leais connosco mesmos, não conseguiremos justificar o injustificável, a nossa vocação natural à proximidade.
O caminho da proximidade é uma das interpelações bíblicas mais radicais e interpeladoras. Através da parábola do bom samaritano, o evangelho de S. Lucas, no cap.10, 25-36, apresenta-nos um cenário isento de dúvidas sobre a facilidade/dificuldade/emergência de nos tornarmos próximos. No ano em que a Igreja se debruça de forma particular sobre a da Palavra do Senhor, aqui fica o convite à revisitação deste texto, à sua meditação, a deixar-se trabalhar por ele e dar mais um passo no compromisso  com as suas implicações práticas.
As nossas palavras têm limites, mas a Palavra de Deus é viva e eficaz, capaz de realizar o que afirma, de encurtar e anular todas as distâncias, a única capaz de anular todas as distâncias. Deixemo-nos tocar e comandar por ela.


Irmã Natália Santos