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Início / Entre nós / Fragmentos de santidade

Madre Carmen

“Da vasta herança que deixou à Província Portuguesa, ressalto alguns aspectos, para mim muito relevantes, experimentados durante os seis anos que, como Provincial vivi junto da Madre Cármen: Centralidade de Cristo. Uma alma mística, sempre unida a Jesus. Esta intensa intimidade com Deus, era o lastro de toda a sua dinâmica espiritual e do seu discreto e humilde actuar. A expressão: “Jesusito mio” que verbalizava com tanta frequência, era o sinal visível da intensa e íntima comunhão que a ligava a Deus.
Incomparável sentido de pertença congregacional. A sua amada congregação tinha em tudo a primazia, sendo frequente breves e longos exames de consciência, em ordem a descobrir a vontade de Deus para a Família Religiosa a que pertencia por inteiro e pela qual estava disposta a fazer os mais exigentes sacrifícios para a ver fiel a Deus e a florescer para a Igreja.
Espiritualidade das pequeninas coisas, dos gestos mais simples, delicados e discretos.
Grande amor à igreja manifestado numa grande solidariedade oracional pelas situações eclesiais e do mundo e da relação com os Bispos, que significava simultaneamente a Igreja e a congregação. Grande espírito de gratuidade, desprendimento e pobreza.
Gratidão a Deus, que eu traduziria no refrão cantado no dia do seu funeral: “Cantarei ao Senhor por tudo o que Ele fez por mim”.
Um amor a Maria sem limites.
Um especial carinho com as famílias das Irmãs a quem dispensava o mais terno acolhimento e tratava com muito amor de Deus.
 
                                                                                                                              Ir. Natália Santos

 Fazer memória da Madre Cármen é olhar para uma Religiosa do Amor de Deus de corpo inteiro. Uma pessoa consagrada a Deus sem reservas, que vivia centrada no Senhor Jesus e que o invocava dezenas de vezes ao dia, quase ao ritmo da respiração. Quantas vezes ao dia exclamavam: “Jesusito mio!”? Muitas. Como bem o expressou a Irmã Sabina, durante a Celebração da Eucaristia que precedeu o seu funeral, “a Madre Cármen poderia não saber teorizar sobre a centralidade de Jesus, mas vivia centrada n’Ele.” Para mim, isso foi sempre um grande testemunho. Teria defeitos, como todos temos, mas o centro de gravidade do seu viver era o Senhor Jesus. Relacionava-se com Ele como com um amigo, de forma pessoal, em particular e em público, sobretudo na Eucaristia. Para a Madre Carmen, entrar na capela “sem motivo” era normalíssimo. Ajoelhava, dizia algumas palavras em voz baixa e saía reverente e silenciosa. “Orem muito e falem pouco”. Que bem cumpria a Madre Cármen este mandato do Fundador.
Houve um tempo da sua vida em que manifestou o que em linguagem vulgar se diz: “escrúpulos”.  Por esse motivo tinha dificuldade em receber Jesus na Eucaristia. Sempre vi esse momento da sua vida como uma graça que Deus lhe concedeu, uma lucidez que a terá feito intuir de forma especial a Santidade de Deus e o quanto era indigna, o quanto somos indignos, de O receber.
Quando celebrávamos a Eucaristia que precedeu o seu funeral e a que presidiu o Sr. D. João Alves, a quem ela tanto prezava, tive a sensação nítida do “tudo está consumado”. É tão bom pensar na Madre Cármen como naquela mulher em quem tudo se cumpriu e em quem o Senhor pôde trabalhar sem entraves! Como era doce, a Madre Cármen! Como era delicada! Sempre confiei na sua oração.
Minha querida Madre Carmen, agora que já viu o rosto d’Aquele a quem tanto amava, suplique-Lhe que nos ajude a sermos fiéis ao Seu querer.
Até breve!

                                                                                                                        Ir. Judite Fernandes


“O Amor de Deus reine em nossos corações. Ave Maria Puríssima! Certamente que quem conheceu e contactou com a Madre Cármen, sabe que as saudações tradicionais eram comuns, na sua linguagem.
Para recordar um pouco da sua vida, pois a sua história é longa, celebrámos os seus 102 anos de vida em Dezembro p.p., vou tentar umas “pinceladas” daquilo que tenho conhecimento, quer ouvindo os seus testemunhos, quer por tradição.
Muito jovem, veio para Portugal, devido à situação que se vivia em Espanha aquando da guerra civil – foi das primeiras Irmãs da Congregação a vir e a procurar, junto dos Bispos das dioceses do Porto e de Coimbra, instalações e locais de trabalho. Esteve ligada à “fundação” da Congregação em Portugal.
Durante vários anos, uns vinte e cinco, foi Mestra de Noviças. Ainda conheci algumas das primeiras Irmãs portuguesas que aqui fizeram o Noviciado, e temos ainda connosco, com a graça de Deus, a Irmã S. José Nunes, que entrou no Noviciado em 1936, mas já era colaboradora no Seminário de Coimbra.
Estava eu a completar o Noviciado, em 1960, quando a Madre Carmen deixou Coimbra, seguindo para Espanha, onde ficou a fazer parte do Governo Geral.
Ao recordar aquele tempo de Noviciado, quando éramos cerca de sessenta noviças, agora considero um autêntico desafio pastoral, uma situação assim.
A Madre Cármen desempenhou a função de Superiora acumulando com a de Mestra de Noviças e mais ainda como a de única Delegada do Governo Geral, em Portugal. Todas as situações das Comunidades, de transferências de Irmãs, de problemas particulares das Irmãs, de fundações de novas Comunidades, de aquisição de terrenos, de encerramento de Comunidades… tudo isso lhe passava “pelas mãos”. Nesta ocasião o Governo-geral estava em Zamora e, quer as deslocações, quer as comunicações eram morosas e difíceis. Pensemos que tudo isto decorreu na primeira metade do século XX…
Se a Madre Cármen fosse unicamente Mestra de Noviças, já tinha uma tarefa árdua, mas abrangia um âmbito maior.
A casa onde funcionou o Noviciado – Casa de Retiros – propriedade da Diocese de Coimbra, estava em estreita ligação e dependência das actividades da mesma. Assim, por ano, realizavam-se quatro grupos de Retiros de Sacerdotes da Diocese e outras actividades. Toda a organização do funcionamento da casa dependia da Madre Cármen. A Irmã Madalena foi “chefe” de cozinha desde que professou e até que de lá saiu. A Irmã Madalena e a falecida Irmã Fátima dos Santos foram o “braço direito” da Madre Cármen, verdadeiras Conselheiras. Mas a Madre Cármen, com a sua formação de professora, soube orientar e formar, de acordo com o seu tempo. Exigente no cumprimento do dever e muito humana. Mulher orante, incutia nas Irmãs a união com Deus durante as actividades domésticas, rezando jaculatórias e com uma devoção profunda à Virgem Maria. E muito mais havia a dizer. Nos últimos anos da sua vida, a Madre Cármen distinguiu-se por um espírito de sofrimento, calmo e silencioso, até ao final. Até à sua partida para o Pai.”

                                                                                                                             Ir. Emília Oliveira


“Fazendo memória da sua vida, durante a noite em que velávamos o seu corpo, tão lindamente preparado, experimentei com força que Deus sempre tinha sido para ela o NORTE, o CENTRO, o DEUS da sua vida, o SENTIDO mais radical da sua VIDA CONSAGRADA, e Maria, a Mãe a quem dedicava um profundo carinho e devoção, porque era para ela MODELO DE SANTIDADE, sempre fiel à vontade de Deus.
E este sentido profundo de Deus na sua vida, soube traduzi-lo num amor feito gestos e pormenores para as Irmãs e para todos os que trabalhavam com ela: Irmãs, Noviças e Postulantes, Sacerdotes, Bispos, leigos, pessoas que, em peregrinação a Fátima, dormiam na Casa de Retiros de Coimbra, onde ela entregou grande parte da sua vida.
Vós Irmãs que partilhastes com ela a vida e a conhecestes mais de perto, sois testemunhas –  pois assim mo transmitistes e eu, com humildade e muita alegria, continuo a acolhê-lo – de que era uma mulher de Deus, ainda que com as suas fragilidades…, ao mesmo tempo que, uma mulher sempre ao serviço dos outros. Sempre atenta para ver se faltava algum detalhe, para o oferecer ou colocar. Simples, bondosa, próxima… em todos os serviços que o Senhor e a Congregação lhe confiaram.
Ainda recordo, nos meus primeiros anos, no Colégio Sagrado Coração de Jesus de Zamora, ainda eu era uma criança, quando as Irmãs me diziam: “Tens que ser como a tua tia, santa…” Naquela altura não entendia o significado daquelas palavras, mas pouco a pouco fui compreendendo e interiorizando… Minha tia falava com muita frequência da santidade e convidava-nos a ser santas.
O Bispo que presidiu à Eucaristia, referindo-se a ela, na homilia, confirmou o que fica dito nestas linhas, dizendo ainda, que “do mesmo modo que através da História da Salvação, houve profetas, a Madre Carmen foi um profeta da nossa época, que encarnou o amor de Deus na sua vida, sendo um grande referente”.
Permiti-me que transcreva algumas linhas de uma das suas últimas cartas, quando estava ainda muito lúcida, na qual se percebe como se preocupava com a pessoa em todos os sentidos. Dizia-me assim: “Cuida-te, alimenta-te, obriga-te… Peço ao Senhor que te conceda todas as graças para que sejas uma verdadeira Irmã do Amor de Deus, como nos queria o P. Fundador e o mundo de hoje precisa… Eu não sou destes tempos… mas quero que sejas uma autêntica Irmã do Amor de Deus…” Quando me escrevia perguntava-me sempre pela família, que muito amou, ainda que quase sempre à distância. Encantava-a receber notícia dos irmãos e dos sobrinhos.
A sua vida, a missão enquanto Irmã do Amor de Deus, excepto um tempo que esteve em Zamora, viveu-a no seu querido Portugal. SEM PALAVRAS…,  IRMÃS! Quantas me gostaria dizer, neste momentos…
Portugal, já a caminho da casa do Pai, acolheu-a em sua terra como estrangeira, mas não como estranha. Acolheu-a como Filha, Irmã, Madre, Mestra… A Madre Carmen estava especialmente agradecida às Irmãs da Província Portuguesa. Hoje, em seu nome, perante o Senhor e perante a própria vida, experimento que o agradecimento e o testemunho são mútuos. Agradeço sinceramente a todas as Irmãs que, das mais variadas formas vos fizestes presentes neste momento, manifestando-me que temos mais uma santa intercessora no Céu. Que ela peça por nós, para que Jesus Cristo seja o centro das nossas vidas e por sua intercessão nos sejam concedidas novas vocações para esta congregação à que tanto amou. Com profunda gratidão, carinho e oração, abraça-vos a vossa Irmã."
 

                                                                                                                            Ir. Sabina Sanchez